Fruta nativa da Mata Atlântica revela alto poder antioxidante e abre caminho para novos nutracêuticos
O resultado, segundo os autores, indica que o cambuí reúne características promissoras para aplicações futuras nas áreas de saúde, alimentação funcional e desenvolvimento de fármacos de origem vegetal.

Myrciaria tenella (Cambuí)
Um fruto pequeno, escuro e pouco conhecido fora de comunidades locais do Nordeste brasileiro acaba de ganhar protagonismo na ciência. O cambuí (Myrciaria tenella), espécie nativa da Mata Atlântica, demonstrou forte capacidade antioxidante e efeito protetor contra o estresse oxidativo em testes celulares e em modelo animal, segundo estudo publicado nesta semana na revista Molecules, do grupo editorial MDPI.
A pesquisa, conduzida por cientistas da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN) em parceria com a Universidade de São Paulo (USP), avaliou extratos do fruto em diferentes estágios de maturação — verde e maduro — e com distintos métodos de extração. O resultado, segundo os autores, indica que o cambuí reúne características promissoras para aplicações futuras nas áreas de saúde, alimentação funcional e desenvolvimento de fármacos de origem vegetal.
“Os extratos apresentaram múltiplos mecanismos antioxidantes, desde a neutralização de radicais livres até a quelação de metais como ferro e cobre”, afirma Katia Castanho Scortecci, professora da UFRN e autora correspondente do estudo. “Esse conjunto de efeitos é relevante porque o estresse oxidativo está associado a doenças crônicas como diabetes, inflamações, distúrbios cardiovasculares e neurodegenerativos.”
Fruto verde, efeito maior
Um dos achados centrais do trabalho é que os frutos ainda verdes concentraram maior quantidade de compostos fenólicos — substâncias reconhecidas pelo potencial antioxidante — do que os frutos maduros. O extrato hidroetanólico do cambuí verde apresentou o maior teor desses compostos e o melhor desempenho geral nos testes laboratoriais.

Em ensaios bioquímicos clássicos, os extratos do fruto verde superaram os maduros na capacidade antioxidante total e no poder redutor. Em culturas celulares, protegeram fibroblastos e macrófagos contra danos induzidos por peróxido de hidrogênio e sulfato de cobre, agentes conhecidos por gerar excesso de espécies reativas de oxigênio (ROS). Nos experimentos, as células tratadas mantiveram maior viabilidade, menor produção de radicais livres e integridade nuclear preservada.
“É um padrão já observado em outras frutas: durante o amadurecimento, parte dos compostos fenólicos diminui, enquanto aumentam açúcares e pigmentos”, explica Hugo Alexandre Oliveira Rocha, bioquímico da UFRN e coautor do estudo. “No caso do cambuí, essa diferença ficou muito clara.”
Do laboratório ao organismo vivo
Para além das culturas celulares, os pesquisadores recorreram a um modelo in vivo com larvas do inseto Tenebrio molitor, cada vez mais utilizado como alternativa ética e de baixo custo a modelos vertebrados. As larvas tratadas com os extratos do cambuí apresentaram taxas elevadas de sobrevivência e menor resposta de melanização — um marcador biológico de estresse — após exposição a um agente oxidante.
O destaque novamente ficou com o extrato do fruto verde, que garantiu até 80% de sobrevivência dos animais submetidos ao estresse oxidativo, contra 60% no grupo não tratado. “Isso reforça que o efeito antioxidante não se limita a sistemas isolados, mas se mantém em um organismo vivo”, observa Rocha.

Efeitos protetores dos extratos do fruto de M. tenella contra o estresse oxidativo induzido por cobre. ( a ) Porcentagem de redução do MTT em fibroblastos NIH/3T3 expostos ao estresse oxidativo induzido por 25 µM de CuSO 4 combinado com 1 mM de ascorbato e tratado com extratos de fruto de M. tenella . VA corresponde ao extrato aquoso do fruto verde; VE ao extrato hidroetanólico do fruto verde; MA ao extrato aquoso do fruto maduro; e ME ao extrato hidroetanólico do fruto maduro. NC representa o controle negativo (apenas meio de cultura), enquanto PC representa o controle positivo (meio de cultura suplementado com 25 µM de CuSO 4 e 1 mM de ascorbato). As diferenças estatísticas entre os tratamentos foram comprovadas utilizando o teste de Tukey (p < 0,0001) em comparação com o grupo PC, conforme indicado pelas letras diferentes (a, b). (b) Intensidade de fluorescência relativa (%) utilizada para avaliar os níveis de espécies reativas de oxigênio (ROS) intracelulares pelo ensaio DCFH-DA. Fibroblastos NIH/3T3 foram tratados com extratos de fruto de M. tenella e a fluorescência foi quantificada utilizando um leitor de microplacas após coloração com diacetato de 2?,7?-diclorodihidrofluoresceína (DCFH-DA). As diferenças estatísticas entre os tratamentos foram comprovadas utilizando o teste de Tukey (p < 0,0001) em comparação com o grupo PC, conforme indicado pelas letras diferentes (a, b). ( c ) Imagens representativas de microscopia de fluorescência de células NIH/3T3 tratadas com extratos do fruto de M. tenella . A intensidade da fluorescência verde corresponde à produção intracelular de ROS, com uma redução acentuada observada nos grupos tratados com o extrato em relação ao controle positivo.
A análise química detalhada revelou que todos os extratos continham ácido gálico, um composto fenólico amplamente estudado por suas propriedades anti-inflamatórias e antioxidantes. Nos extratos aquosos, predominam derivados de catequina; já nos hidroetanólicos, aparecem flavonoides do tipo kaempferol.
Essas moléculas, segundo a literatura científica, atuam em vias celulares ligadas à resposta inflamatória, à regulação do metabolismo oxidativo e à proteção do DNA. “A combinação desses compostos ajuda a explicar o efeito observado nos testes”, diz Deborah Yara Alves Cursino dos Santos, pesquisadora da USP e coautora do trabalho.
Tradição popular, ciência recente
Apesar do uso tradicional do cambuí na alimentação e na medicina popular, especialmente em regiões do Nordeste, estudos sobre o fruto ainda são escassos. Pesquisas anteriores concentravam-se sobretudo nas folhas da planta, onde já haviam sido identificadas propriedades antioxidantes e até antitumorais.
“O fruto era praticamente um território inexplorado do ponto de vista químico e biológico”, afirma Scortecci. “Nosso estudo é o primeiro a caracterizar de forma sistemática a atividade antioxidante do cambuí em modelos celulares e in vivo.”
O avanço do conhecimento sobre frutas nativas brasileiras ocorre em um momento de crescente interesse por alimentos funcionais e ingredientes naturais com valor agregado. Para os pesquisadores, o cambuí pode se tornar uma alternativa econômica para comunidades locais, além de fortalecer estratégias de conservação da biodiversidade.
“A valorização científica de espécies nativas contribui para a preservação da Mata Atlântica e para o desenvolvimento regional”, afirma Scortecci. “Mas é importante deixar claro: ainda não se trata de um produto terapêutico. São necessários estudos adicionais, inclusive em modelos clínicos, para avaliar segurança e eficácia em humanos.”
Os autores defendem que os resultados abrem caminho para o desenvolvimento de nutracêuticos, suplementos alimentares e, no futuro, fitoterápicos. Também apontam a necessidade de estudos sobre biodisponibilidade, padronização de extratos e impacto do consumo regular.
Enquanto isso, o pequeno cambuí, muitas vezes ignorado fora de seu território de origem, ganha novo status: o de símbolo do potencial científico ainda escondido na flora brasileira.
Referência
Potencial antioxidante dos extratos do fruto de Myrciaria tenella : proteção in vitro e in vivo contra o estresse oxidativo. Verônica Giuliani de Queiroz Aquino-Martins, Maria Lúcia da Silva Cordeiro, Ariana Pereira da Silva, Georggia Fátima Silva Naliato, Elielson Rodrigo Silveira,Raquel Cordeiro Theodoro, Débora Yara Alves Cursino dos Santos, Hugo Alexandre Oliveira Rocha e Katia Castanho Scortecci. Moléculas 2026 , 31 (4), 602; https://doi.org/10.3390/molecules31040602 (DOI registrado) - 9 de fevereiro de 2026